23 dez 2020

Desafio de Aprendizagem Criativa se reinventa em ano de pandemia

Aluna produzindo slime caseiro em atividade mão na massa em casa. Foto: E. M. Professor Mário Bergamasco.

 

Os procedimentos para tirar o visto americano já haviam sido iniciados, mas logo a pandemia jogou um balde de água fria nos planos de viagem dos vencedores do Desafio de Aprendizagem Criativa (DAC) de 2020. Todos os anos, como parte de um processo formativo, os educadores selecionados pelo Desafio promovido pela RBAC (Rede de Aprendizagem Criativa) viajavam até Boston, conheciam o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e outras instituições de ensino que se dedicam à aprendizagem criativa. Nada disso foi possível este ano.

 

Apesar do cancelamento das viagens e encontros presenciais, os integrantes das oito equipes selecionadas, chamados de fellows, não quiseram abrir mão da formação que o DAC sempre proporciona. Assim, pela primeira vez desde 2015, o programa teve que se desenvolver 100% online.

 

“Os fellows do DAC são profissionais que já realizam práticas de aprendizagem criativa em suas escolas, mas durante um ano de encontros, a gente ajuda a dar uma formalização nos conceitos. Este ano, tivemos um momento de perguntar: vamos continuar? Todos quiseram continuar, fazer virtualmente”, afirma Ann Berger, pesquisadora no MIT e coordenadora do DAC. Foram necessárias diversas adaptações. Embora não tenham ido ao MIT, conheceram algumas pessoas-chaves durante a Semana de Aprendizagem Criativa em outubro, conta Ann. 

 

O ano foi sem dúvida “diferente”, mas também bastante proveitoso para todos. “Organizamos uma sequência de encontros para eles pensarem sobre os projetos que escreveram, refletirem sobre suas próprias experiências e formação”, explica Ann. As discussões foram voltadas às atividades propostas nas suas escolas, levantamentos junto aos alunos, professores, e gestores, análise dos resultados. 

 

De Jaguariúna, interior de São Paulo, a professora Luciene Mara de Lima se engajou na formação oferecida pelo DAC e garante ter aprendido muito. “No começo, quando fomos selecionados, achamos que estávamos abafando. Mas tinha tanta coisa para repensar, melhorar, tomar cuidado para não mecanizar o processo só que de outra forma”, afirma Luciene. A cada questionamento, debates, troca de experiência, seu projeto foi sendo aperfeiçoado. “Contar com colegas dispostos a ajudar e com a orientação da Ann foi fundamental. Agora sim nosso projeto está pronto”.  

 

Batizado de “Alimentando Mentes Criativas”, o projeto envolve a elaboração de jogos na linguagem de programação Scratch e foi posto em prática mesmo durante a pandemia. “Algumas coisas foram deixadas para depois, mas outras estão acontecendo. A comunidade valorizou o projeto. Teve aluno que antes não participava das aulas, mas se motivou com desafios e atividades mão na massa. Tiveram pais que eram ausentes da vida escolar, mas mudaram de atitude quando viram o interesse dos filhos”, afirma Luciene.

 

Alunos utilizando o Scratch em projeto antes do período de isolamento social. Foto: E. M. Professor Mário Bergamasco.

Práticas digitais e doutoramento

Camila Duarte, professora de história em São Gonçalo do Amarante, Rio Grande do Norte, aproveitou a participação no DAC de maneiras que ela mesma não poderia prever. “Os encontros do Desafio inauguraram para mim a via digital, desde como se faz para entrar numa videoconferência - eu só tinha experiência com aprendizagem presencial. Fui usando com meus alunos metodologias que aprendi nas reuniões do DAC”, afirma a professora, que convidou até alguns de seus alunos para participar das reuniões. 

 

Como o projeto Missão Galo parte de visitas e conversas para os estudantes conhecerem tradições locais, muito do trabalho precisou ser adiado. Ainda assim, o projeto saiu fortalecido, garante Camila. “A troca com os colegas e as perguntas da Ann nos direcionaram a pensar em coisas novas”, diz. 

 

Colega de Camila que também participa do Missão Galo, o professor de português Wesley Pedroza se inspirou no arcabouço teórico que adquiriu ao participar do DAC para se aprofundar ainda mais. Fez projeto e foi aprovado para cursar um doutorado na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). “É na área de linguística aplicada e trata da ressignificação de mitos e lendas tradicionais”, explica. 

 

Mudança sistêmica 

Ao longo do ano, os fellows do DAC participaram de 32 horas de encontros online, mais as atividades práticas e os estudos. Para Ann, o alto índice de participação ao longo da série de encontros virtuais é a prova de como todos os fellows sentiram o valor de participar do DAC. Agora o Desafio de 2020 acabou oficialmente, mas a intenção do grupo é continuar interagindo em 2021, mesmo que continuem impedidos de se encontrar presencialmente. 

 

As repercussões devem ser, portanto, prolongadas, mas também amplas. Os 30 fellows do DAC, assim como os finalistas de outros projetos que concorreram em 2020, também participaram ao longo de 2020 do GET (Grupo de Estudo e Trabalho) de Adoção Sistêmica, que discute práticas de aprendizagem criativa em redes de ensino. Essa é uma ação paralela da RBAC que tem o objetivo de levar essa forma de educação a mais alunos.

 

Para Ann, não há dúvidas que o impacto chegará à ponta final, o estudante. “Hoje temos oito projetos muito sólidos de aprendizagem criativa e um grupo de 30 pessoas mais conscientes das oportunidades e estratégias para implementá-la.”

 

Autor
Porvir
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Artigo
Entrevista

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