02 mar 2022

“Ou você entra na sala para cumprir tabela ou faz algo acreditando que a educação pode transformar”

 

“Trabalho na Escola Técnica Estadual Santa Isabel, na zona rural, a 32 quilômetros do centro de São Lourenço, no Rio Grande do Sul. A escola tem uma área de 200 hectares de terra e uma infraestrutura de 5 mil metros quadrados, com trator, animais, possibilidade de fazer trilhas com os alunos. 

Tenho 32 anos de magistério, comecei em 1989 e não consigo me aposentar, não estou pronta para parar. Amo dar aulas na Santa Isabel, o único problema é que fica a 84 km da minha casa, em Pelotas. Trabalhei 25 anos em uma escola, na qual fui diretora e que está a duas quadras da minha casa, mas quando penso em sair dessa atual, reflito: em qual escola eu teria essa diversidade cultural, esse espaço? Acabo ficando.

Dou aulas de gestão ambiental para o curso técnico em agropecuária integrado ao ensino médio. Tenho a grande responsabilidade de dar a visão para os meus alunos sobre a necessidade de cuidarmos do nosso planeta. Em uma das aulas falávamos dos recursos naturais e não naturais, entramos na questão do plástico, que é um polímero, que demora anos muito tempo para se decompor. Algumas alunas se animaram – Rafaela Borges, Vitória Jardim e Vivian Holz – e fomos buscar receitas de como criar um plástico biodegradável, feito à base de batata. 

Foi assim que há três anos começou o projeto que passou a ser chamado de ‘meninas do plástico’.  Fizemos o primeiro teste com batata, vinagre e glicerina, só que tivemos problemas com umidade e não deu muito certo. Começamos a usar babosa e melaleuca e fizemos vários outros testes para o nosso plástico melhorar porque ele não tinha aderência. 

Fomos para a Universidade Federal de Pelotas, na área da agronomia, no departamento onde fiz meu mestrado, e aprendemos uma metodologia simples, a base de amido de feijão. Vimos que nosso erro era na glicerina, que era necessário usar a P.A., a não comercial, e vimos também que o vinagre não era legal. Chegamos a um bom resultado, só com glicerina, amido, água e temperatura, o amido, em si, já é um polímero. 

Nós trabalhamos também com o repolho roxo, fizemos com ele um plástico para tampar recipientes. Como o repolho roxo muda de cor, de acordo com seu PH, pode apontar se o alimento dentro desse recipiente está se estragando ou não. Era nosso plástico inteligente. 

O projeto nos levou a vários lugares. Fomos convidadas a apresentá-lo em mostras pedagógicas, congressos, seminários, as alunas começaram a viajar comigo para Pelotas, para Porto Alegre, conhecer pessoas. Também recebemos o selo Escola Criativa, Empreendedora e Inovadora concedido pelo Estado do Rio Grande do Sul.  

Com a pandemia, em 2021, fomos para as redes sociais e passamos a divulgar nosso trabalho na internet. Por meio de um colega que ministrou uma oficina de atividade criativa em um evento chamado Canopel, recebemos o convite para ingressar no Clubes Criativos, iniciativa da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa (RBAC), onde participávamos das atividades online, podíamos trocar experiências e compartilhar práticas. Foi uma boa oportunidade para entender que eu não estava sonhando sozinha. 

Na verdade, o conceito da aprendizagem criativa se vincula totalmente à minha prática. É algo que está no meu sangue. Enquanto professora você tem duas opções: ou pega um livro e entra na sala de aula só para cumprir tabela ou faz algo acreditando que a educação pode transformar, ir além do que só passar os conteúdos que estão dentro do livro. Há duas linhas de ação. O que você vai fazer com os 50 minutos que está à frente dos alunos? Se for cumprir tabela, você vai enjoar do que faz e os alunos, provavelmente, vão enjoar de ti. Mas se for além, tu vai gostar do que faz, os alunos vão gostar de você. Você vai proporcionando atividades criativas, e agregando pessoas. Claro que dá mais trabalho, mas também dá mais felicidade. 

As alunas do grupo se formaram no ano passado, estão no meio dos processos seletivos para o ensino superior. Uma quer estudar pedagogia, outra física, outra agronomia. Fico feliz quando vejo que meus alunos estão encaminhados. 

Agora começo um novo ano e estou na fase de recrutar novos alunos. Estou pensando em fazer um projeto com arduínos na agricultura. O arduíno é uma placa eletrônica que se pode adaptar para verificar, por exemplo, o PH do solo, ou ainda, fazer a irrigação automática na agricultura. Quero ver se consigo mais atores para estarem comigo para caminharmos nesses próximos anos. 

Meus alunos têm propriedades rurais ou trabalham nesta área, é por isso que a escola existe. Não posso ficar arcaica, preciso entender o que está acontecendo com eles, quais vão ser suas profissões e como posso agregar na família, na vida deles. Essa é a proposta da aprendizagem criativa com seus vários Ps. A aprendizagem criativa surge dos professores criativos. 

Sempre que concluo um grande projeto a pergunta que fica é: qual vai ser meu próximo trabalho?”


*Este texto integra a série “Histórias da RBAC”, que conta com depoimentos dos membros da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa relatando suas atividades, projetos, sonhos e inspirações. 

 

Categoria
Artigo
Entrevista

3 Comentários

Parabéns pela sua desenvoltura e seu pensamento dinâmico Profe Magna. É isso mesmo que devemos ser e você é um exemplo de professora que devemos compartilhar.
Obrigada pela sua experiência exposta aqui, já sigo essa linha e quero seguir mais ainda.

Muito legal seu projeto professora Magna. Fiquei curioso em conhecê-lo, caso tenhas fotos e vídeos compartilhe os links conosco.